segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A arte de ser encontrado por Deus


Enquanto nós fingirmos para nós mesmos, nós não iremos a lugar algum

Padre Fábio, meditando o Evangelho de São João (cap.4) – a passagem da Samaritana –, ajuda-nos a entender a importância de rever o passado e projetar o futuro.
Você já pode perceber que uma pessoa, no momento que se encontra mais necessitada, torna-se também vulnerável? E há pessoas que têm o dom de nos seduzir.
Na leitura do Evangelho, a passagem da Samaritana (Jo, 4) aconteceu ao meio-dia. Essa mulher foi encontrada, talvez, no momento em que o corpo mais precisava de um cuidado.
O meio-dia representa, aqui, a separação daquilo que fizemos na manhã e o que vamos fazer à tarde. Esta "manhã" é simbolizada por aquilo que nos fez cansados, ou seja, o nosso passado, aquilo que já foi vivido. O perigo que podemos correr é de fazer, do período da "tarde", uma repetição daquilo que vivemos no passado do nosso dia, isto é, a nossa "manhã".
A "manhã" dessa mulher, como relata o Evangelho, foi toda errada, porque ela não alcançou seus objetivos. Então, entra Aquele por quem nos apaixonamos um dia: Jesus!
É Deus quem pede um favor para uma mulher que viveu uma manhã sem esperança. No diálogo com Jesus, a mulher recorda da sua manhã, reconhece-se "não merecedora"; vê-se totalmente tomada pela derrota. Só um olhar, como o de Jesus, para nos fazer esquecer tudo aquilo que não deu certo.
Às vezes, encontramos pessoas que nos fazem esquecer a nossa amargura, provocada pela vida. Jesus olhou para aquela mulher não para condená-la, mas para uma profunda cura interior.
Profeta não é aquele que nos aponta um futuro glorioso, mas que nos mostra aquilo que precisamos renunciar para, depois, assumirmos um futuro glorioso. Diante de Deus, máscaras não funcionam. O que aquela mulher precisava fazer era só ter a capacidade de dizer: "Eu sou isso".
Enquanto fingirmos para nós mesmos, não iremos a lugar nenhum; enquanto não reconhecermos as nossas necessidades, nossas lutas e nossos males; enquanto não dermos nomes aos nossos inimigos e olharmos nos olhos deles, eles serão maiores do que nós. Enquanto tivermos medo dos malefícios da "manhã", não seremos capazes de entrar na "tarde" com as cores de ressurreição.
É impossível amar o outro se antes o amor de Jesus não estiver amando em nós e não estiver nos devolvendo, o tempo todo, a nós mesmos. Quando nos amamos, o que, na verdade, estamos fazendo não é trazendo o outro para nós, pois isto é equivoco, é a "manhã" que não deu certo. Amor de ressuscitados, amor de homens e mulheres que acreditam em Deus não é amor que retém, é amor que devolve ele a ele mesmo. Amor humano é devolução, é restituição. A pessoa que aceita qualquer coisa também será deixado por qualquer coisa.
Quantos de nós temos de passar pelo duro aprendizado de dizer "não deu certo". Essa é a coragem de olhar para nós mesmos e reconhecermos: "Não deu certo, mas ainda pode dar". Por orgulho, nós mentimos para o outro. Jesus deu a força para aquela mulher reconhecer: "Eu não nasci para viver essa condição de miserável eternamente".
Na sua vida, você faz a experiência de encontrar e de ser encontrado. Tantas vezes você esbarra naquele irmão que você já não vê há trinta anos e por quem já não sente mais nada. Irmãos que, há tanto tempo, não se encontram, porque não têm a coragem de contar a sede que têm do outro, e este não sabe que seu irmão está sedento.
Quantas relações humanas estão falidas porque as pessoas não conseguem mais reinaugurar um ao outro.
Às vezes, somos especialistas em colocar os olhos somente naquilo que não deu certo em nós.
Sabe o que mais me fascinava no padre Léo? A capacidade que ele tinha de não olhar a prostituta, mas de ver a mulher.
Comece pelos pequenos gestos, nem que seja lavando um copinho sujo de café. Eu sei que você tem realidades muito concretas, sobre as quais você pode dizer: "Eu não fui fiel, eu não fui irmão; eu fui pelo caminho da prostituição. Eu corri atrás do retrocesso, ao invés de correr atrás do poço de água limpa para por atenção na manhã que não deu certo. Confiei em estranhos, ao invés de confiar naqueles que me colocaram no mundo. Permiti que muitos me jogassem no barro da indiferença e esqueci-me de quem eu era". Eu o desafio, agora, a estar sentado à beira do poço.
Ao invés de um rosto marcado pela revolta, no rosto de Jesus você encontra amor. Você pode correr para Jesus, pois a sua "manhã" só pode ser esquecida se você fixar o seu olhar no rosto d'Ele; neste olhar que pode reinaugurá-lo e tirar a placa que lhe dizia "falido".
Hoje, receba a placa que diz: reinaugurado por Jesus.

Padre Fábio de Melo

sábado, 6 de setembro de 2008

A força se realiza na fraqueza




Pelas limitações e deficiências, obrigado, Senhor!

«O que lhe falta para se sentir realizado e feliz em sua vida, em seu casamento, em sua pro-fissão?» A pergunta tem sentido, pois só vale a pena viver se nos sentimos gratificados com o que somos e realizamos.
Pelo que tudo indica, para a maioria das pessoas, a resposta não é sempre alvissareira, pela sensação de carência afetiva que as leva a tentar preencher, de todos os modos, o vazio e-xistencial que as acompanha ao longo da vida, deixando-as angustiadas e ansiosas. Um vazio existencial, fruto da própria natureza humana, limitada e precária, que afeta o incons-ciente e a afetividade, gerando sentimentos ou complexos de inferioridade.
Não há como fugir: nascemos pequenos e dependentes, o que nos leva a buscar nossa reali-zação e felicidade em algo que nos torne grandes e importantes aos nossos próprios olhos. Quando não há maturidade e discernimento, o que se costuma fazer é alimentar uma confi-ança, às vezes doentia e obsessiva, na carreira que se abraça, no corpo que se cultiva, no estudo que se faz, no carro que se compra, na casa que se constrói. E quando pouco ou nada se consegue – ou quando nada mais nos satisfaz –, procura-se refúgio em compensações e cai-se na depressão.
A tentação, então, é fugir de tudo o que importa sacrifício, renúncia e sofrimento. Cria-se um círculo vicioso de conseqüências desastrosas, já que a quase totalidade dos males que afligem a sociedade deriva exatamente do domínio do instinto sobre o espírito, da emoção sobre a razão. Neste processo de involução, à medida que cresce a insatisfação interior, passa-se a procurar culpados, que são sempre os outros: a sociedade, o governo, os pais, a escola, ou, então, a natureza, uma madrasta que nos cobriu de limitações e deficiências.
Mas, «para os que amam a Deus, tudo concorre para o seu bem» (Rm 8,28). Tudo, não ape-nas os bens espirituais, culturais e materiais – os quais, não poucas vezes, pelo egoísmo e covardia de quem os recebe, nem sempre colaboram para o seu crescimento, mas até mes-mo a própria fraqueza humana. Foi a grande descoberta feita por São Paulo, que revolucio-nou a sua vida. Esmagado pela humilhação causada por um «enviado de Satanás que me esbofeteava, por três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Ele me respondeu: “Basta-te a minha graça: a força se realiza na fraqueza”. Portanto, com muito gosto me or-gulharei de minhas fraquezas, para que se manifeste em mim o poder de Cristo. Por isso, alegro-me com as fraquezas, os desprezos, as necessidades, as perseguições e as angústias por Cristo. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte» (2Cor 12,710).
Se alguém se lança nos braços de Deus, passa pelo mesmo processo que se verifica em seu corpo: quando os olhos perdem a visão, os ouvidos reforçam a audição; se um pulmão é extirpado, o outro redobra a atividade. É o que acontece com inúmeros santos que, graças às limitações e deficiências que carregam em seus ombros, põem toda a sua confiança no poder e no amor de Deus. E vencem de uma forma extraordinária, infinitamente mais do que seus colegas superdotados. É o caso de São João Maria Vianney. Ele tinha todas as condições para acabar derrotado: pouca cultura, inteligência medíocre, falta de cultivo soci-al, início retardado dos estudos, últimas colocações no seminário, dificuldade de assimilar conhecimentos teóricos, aprovado todos os anos por favor, ordenado por favor e, por favor nomeado para uma paróquia que nenhum outro sacerdote aceitaria. Mas, o que lhe era fra-queza, acabou sendo a sua grandeza, a sua força, a sua vitória.
A alegria de Deus, que conhece nossas fraquezas, sobretudo aquelas de que nos envergo-nhamos e procuramos ocultar, é realizar sua obra-prima exatamente onde nenhum outro investiria. Ao invés de se afastar, é atraído por nossa pequenez mesclada de confiança e de humildade. É a maravilhosa experiência feita pelo salmista: «Teu amor me faz pular de alegria, pois conheces minhas aflições e as angústias de minha alma» (Sl 31,8). O abismo de nossa miséria atrai o abismo da misericórdia de Deus (Cf. Sl 42,7).
Não há nenhum motivo para nos assustar ou queixar diante das limitações, fraquezas e de-ficiências... se nos colocarmos confiantes nas mãos de Deus, dispostos a fazer, momento por momento, a sua vontade, mesmo quando ele permite a dor. Se assim agirmos, elas pas-sam a fazer parte do maravilhoso plano que Deus tem a nosso respeito. Quem faz sua a morte e a ressurreição de Jesus, em todo sofrimento encontra a vida e, em todo fracasso, a vitória.
Foi esse o segredo que revolucionou a vida de Santo Agostinho, e que o levou a bradar: «Ó feliz culpa de Adão e Eva, que nos mereceu tão grande Redentor!»

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sou forte


Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte


Esse versículo parece uma grande contradição paulina.
Como posso tirar força de minha fraqueza? Como posso diante de minha impotência ser potente?
Isso só é possível dentro da perspectiva de alguém que se reconhece necessitado de Deus. Alguém que, como Paulo, sabe que sem a ação do Espírito Santo não se pode fazer nada.
Paulo era um cara muito estudado, de inteligência ímpar. Mas sabia que sua humanidade possuía fraquezas. E como lidava com isso?
Somente submetendo tudo a Deus.
Fraco não é aquele que possui fraquezas, mas sim, aquele que se rende a elas.
Tocar em minhas fraquezas, em meu vazio, é perceber que quando não tenho mais nada posso contar com o Tudo de Deus.
Somos humanos, somos gente. Sentimos dor, sentimos sede, nos sentimos impotentes. Até Jesus em Sua humanidade também sentiu dor. E Ele não teve medo de apresentar as fraquezas d'Ele aos amigos e a Deus.No Getsêmani foi isso que nos foi apresentado de forma clara.
Lembro aqui uma história antiga:
Um garoto de dez anos de idade decidiu praticar judô, apesar de ter perdido o braço em um terrível acidente de carro. O menino ia muito bem. Mas sem entender o porquê, após três meses de treinamento, o mestre havia lhe ensinado somente um movimento. O garoto então disse a ele:
- Mestre, não devo aprender mais movimentos?
O mestre respondeu ao menino, calmamente e com convicção:
- Este é realmente o único movimento que você sabe, mas também é o único movimento que você precisará saber.
Meses mais tarde, o mestre inscreveu o menino em seu primeiro torneio. O menino ganhou facilmente seus primeiros dois combates e foi para a luta final do torneio. Seu oponente era bem maior, mais forte e mais experiente. O garoto usando os ensinamentos do mestre entrou para a luta e, quando teve oportunidade, usou seu movimento para prender o adversário. Foi assim que o garoto ganhou a luta e o torneio. Era campeão.
Mais tarde, em casa, o menino e o mestre reviram cada luta. Então, o menino criou coragem para perguntar o que estava realmente em sua mente:
- Mestre, como eu consegui ganhar o torneio somente com um movimento?
- Você ganhou por duas razões - respondeu o mestre. - Em primeiro lugar, você dominou um dos golpes mais difícieis do judô. E, em segundo lugar, a única defesa conhecida para esse movimento é o seu oponente agarrar seu braço esquerdo.
A maior fraqueza do menino tinha se transformado em sua maior força. Assim, também nós podemos usar nossa fraqueza para que ela se transforme em nossa força. Não podemos ter medo de deixar o Mestre Jesus trabalhar nossa fraqueza. Ele sabe lidar com nosso "húmus", com aquilo que aparentemente é nossa fraqueza e dela tirar a maior riqueza e fortaleza.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Amizade: dom e tarefa


A amizade necessita de constantes cuidados para se perpetuar
A+A-
A vida é uma realidade que se exerce em meio a constantes tensões.
Existir é estar exposto a acréscimos e podas, é se encontrar com perdas, alegrias, sofrimentos, frustrações... Uma coisa é certa: existir – com qualidade – não é tarefa fácil, pois a vida constantemente exige de nós respostas e posicionamentos diante das dificuldades apresentadas por ela.
Viver é responder, e viver bem significa responder bem, decidindo em tudo pelo “melhor”. Contudo, o peso das respostas exigidas pela vida se torna mais leve quando aprendemos que a existência pode ser partilhada.
Quando um coração descobre em si o dom de acompanhar e de se deixar acompanhar o ser se reveste de um novo sentido e tudo se adorna de um novo sabor. A arte de acompanhar e ser acompanhado tem o poder de tornar importante o que antes nada significava. Quando temos a coragem de partilhar o que somos, incluindo limites e fraquezas, e de atenciosamente acolher o que o outro é, podemos contemplar milagres sendo realizados por meio dessa entrega.
O que, para nós, não tem valor pode edificar alguém, o que outro enfrenta nesse espaço de tempo pode ser a palavra certa que precisamos ouvir; a partilha do que se é – no positivo e negativo – tem a força de realizar profundas transformações.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A esperança é o combustível da vida


Vida sem sabor é uma vida sem perspectivas de quem se cansou de tentar

A esperança corresponde à aspiração de felicidade existente no coração de cada pessoa. Interessante observar que quem perde a esperança mais profunda perde o sentido de sua vida; sem esperança viver não tem sentido. O próprio antônimo dessa palavra é DESESPERO, ou melhor, a perda quase que em estado definitivo da esperança. E este [desespero] é capaz de corroer o coração.
A esperança é a vacina contra o desânimo e contra a possibilidade de invasão do egoísmo, porque apoiados nela nos dedicamos à construção de um mundo melhor. A perda da esperança endurece nossos sentimentos, enfraquece nossos relacionamentos, deixa a vida cinza, faz a vida perder parte do seu sabor. Porém, todos os dias somos atingidos por inúmeras situações que podem nos desesperar.
A esperança é o combustível da vida, a forma de mantê-la viva é não prender os olhos nas tragédias, pois a cada desgraça que contemplamos corremos o risco de perdê-lo [combustível]. Existe na mitologia grega a presença de uma figura interessante: uma ave chamada fênix, que quando morria entrava em autocombustão e passado algum tempo renascia das próprias cinzas. A fênix, o mais belo de todos os animais fabulosos, simbolizava a esperança e a continuidade da vida após a morte. Revestida de penas vermelhas e douradas, as cores do sol nascente, possuía uma voz melodiosa que se tornava triste quando a morte se aproximava.
A impressão causada em outros animais por sua beleza e tristeza chegava a lhes provocar a morte. Nossa vida passa por este processo várias vezes num único dia, ou seja, sair das tragédias para contemplar a beleza que não morreu, a vida que existe ainda, como fazia essa ave mitológica. Alguns historiadores dizem que o que traria a fênix de volta à vida seria somente o seu desejo de continuar viva, depois de completar quinhentos anos elas perdiam o desejo de viver e aí se morressem não mais reviviam. O desejo de continuar a viver era sua paixão pela beleza, que é a vida.
Vida sem sabor é uma vida sem perspectivas; quem cansou de tentar, cansou de lutar e desistiu de tudo, uma vida que apenas espera o seu fim, por pensar que nada que se faça pode mudar coisa alguma. Quem perdeu a capacidade de sonhar, o desejo de felicidade confundiu-se com a utopia. Felizmente não existe motivo para desanimar, lembrando as palavras de São Paulo: “A esperança não decepciona” (Rm 5,5). Não falamos aqui de qualquer esperança, mas da autêntica esperança, que não se apóia em ilusões, em falsas promessas, que não segue uma ilusão popular em que tudo se explica.
A esperança verdadeira, vinda de Deus, é uma atitude muito realista, que não tem medo de dar às situações seu verdadeiro nome e tem sempre Deus como fator principal. Não tem medo de rever as próprias posições e mudar o que deve ser mudado.
À medida que perdermos ilusões e incompreensões temos o espaço real no qual pode crescer a esperança, que nada mais é do que a certeza de que tudo pode ser melhor do que o que já vemos. E o desejo de caminhar na direção da vida, atraídos pela sua beleza que no momento pode somente ser sonhada, mas é contemplada pelo coração.
O homem pode ser resistente às palavras, forte nas argumentações, mas não sobrevive sem esperança. Ninguém vive se não espera por algo bom, que seja bem melhor do que o que já conhece, já possui ou já experimentou. Deus alimenta nossa vida por meio da esperança!


Pe. Xavier

terça-feira, 22 de julho de 2008

Eu tomo posse daquilo que sou



Quem não se ama não sabe amar ninguém



Ser pessoa é antes de tudo ter consciência: “Eu sei quem sou eu. Tenho diante de mim minhas dificuldades, mas eu me aceito!” Conversão é tomar posse daquilo que se é. Por isso, Deus não pode trabalhar com uma pessoa mascarada, que não se aceita.
Não existe cristão se ele não se aceitar do jeito que é. Você é o que é, e a sua conversão passará por aquilo que você é!
Jesus quando viu Maria Madalena fez com que ela voltasse a ver aquilo que ela era, não uma prostituta, mas uma filha de Deus projetada por Ele; não aquilo que a sociedade criou.
Nós caímos muito nos artifícios que nos são apresentados. Nossa vida se ilumina por novidades e gostamos muito do estético. E seguimos aquilo que é diferença, não somos fã da disciplina.
Corremos atrás de coisas e duas semanas depois vemos que realmente aquilo não era tão bom como parecia.
Por que os artistas não permanecem muito tempo casados? É por causa disso. Querem respostas rápidas, românticas, buscam o brilho eterno e acabam desanimando. Então, o outro começa a decidir por nós e ficamos perdidos. Muitas pessoas, ora dão um testemunho de que acreditam em Deus ora, passado um tempo depois, já dizem acreditar em Buda, depois em Maomé, e mais tarde na energia [cósmica]... Não ficam presas a nada.
Cuidado para não seguir somente as vaidades. Somos vaidosos, mas não podemos ser levados pela vaidade. Não invente um personagem, seja aquilo que você é. Seja autêntico, assim você provoca autenticidade nas pessoas a seu redor. Procure ser aquilo que Deus o fez. Se você está correndo atrás de porcaria cuidado para não acabar deixando de ser aquilo que Deus fez de você.
Deus acontece plenamente no nosso coração quando nós nos permitimos ser aquilo que somos. A nossa divindade só acontece na participação.
Não seja aquilo que dizem que você é. Parece estranho, mas não podemos dar aquilo que não temos. Se você não descobrir que você é sagrado, você não vai perceber a sacralidade que o outro é!
Quem não se ama não sabe amar ninguém. É uma pessoa ausente de si mesma. Os amores estragados que passaram minou aquilo que se era. Há pessoas que vemos que não têm amor-próprio; mas nós não temos o direito de perder esse amor.
Tome posse do que você é para depois dar-se ao outro.
Padre Fábio de Melo

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Perdão, uma atitude necessária


Infelizmente temos o mau hábito de acumular mágoas e ressentimentos

Perdoar é uma atitude e não uma questão de sentimento. Muitas vezes ficamos presos aos sentimentos. Queremos sentir, ou melhor, queremos deixar de sentir a dor que ficou em nosso coração com a atitude que nos feriu. O perdão é antes de tudo um ato de decisão, uma escolha. Começa com a atitude que nasce da decisão de perdoar, e somente depois é que os sentimentos se modificam. E mesmo assim, para que isso aconteça, muitas vezes é necessário tempo. Monsenhor Jonas Abib nos fala assim: “Perdoar é ato de vontade e não um simples sentimento. Temos o livre-arbítrio de escolher entre perdoar ou guardar entulhos no coração. A decisão é nossa. Somente com o perdão conseguimos harmonia em nosso coração”.
Quando falamos em perdão, quase que imediatamente se faz uma ligação com a dificuldade que encontramos para dar ou receber perdão. Infelizmente temos o mau hábito de, ao longo de nossa vida, ir acumulando mágoas e ressentimentos. Em geral, temos facilidade de nos ofender com as atitudes que não compreendemos do outro. No entanto, a falta de perdão, a mágoa, o ressentimento, só trazem prejuízos para nós e para o outro, prejuízos inclusive em nossa saúde física e mental. A falta de perdão causa amargura em nosso coração, tira a alegria de viver.
Hoje, quero trazer para nossa reflexão pesquisas para que possamos refletir sobre outro aspecto do perdão que pouco é falado, que são os benefícios que podemos alcançar através dessa atitude.
Em 2004, Charlotte Van Oyen Witvliet, professora de psicologia do Hope College, em Michigan, EUA, liderou uma experiência com 71 voluntários. A experiência constava do pedido que os voluntários se lembrassem de alguma ferida antiga, algo que os tivesse feito sofrer. Nesse instante, foi registrado o aumento da pressão sanguínea, dos batimentos cardíacos e da tensão muscular, reações idênticas às que ocorrem quando as pessoas sentem raiva. Depois foi pedido que eles se imaginassem entendendo e perdoando as pessoas que haviam feito mal a eles. O resultado foi que as pessoas se mostraram mais calmas, e com a pressão sanguínea e os batimentos cardíacos menores.
Outra experiência que podemos citar é a do Dr. Fred Luskin, que 1999 criou um projeto para a Universidade de Stanford (EUA) para uma pesquisa sobre o perdão. A pesquisa estudou o impacto das emoções negativas, como a raiva, a mágoa e o ressentimento no sistema cardíaco. Os primeiros resultados indicaram que [ao conceder e pedir perdão] os participantes apresentavam redução do nível de estresse, viam-se menos irados e mais confiantes. Além disso, o estudo mostrou que o perdão pode promover uma melhora na saúde física, pois esse grupo de pessoas apresentou uma diminuição significante em sintomas como dores no peito, na coluna, náuseas, dores de cabeça, insônia e perda de apetite.
Luskin e Thoresen afirmaram que essa melhora psicológica e física persistiu pelo menos por quatro meses; em alguns casos, ao longo desses quatro meses, a melhora continuou a progredir.
Podemos concluir, portanto, que não podemos parar na dificuldade em perdoar. Essa é uma cultura que existe entre nós e que precisamos mudar. Precisamos ensinar aos nossos filhos que perdoar, além de ser uma ordem divina para nós, traz inúmeros benefícios para a nossa saúde física e mental. Se aprendermos a perdoar podemos alcançar com mais facilidade equilíbrio em nossa saúde geral. Só não podemos nos esquecer de que o perdão não está relacionado com a mudança do outro ou com o deixar que o outro faça o que quiser, pois não quer dizer impunidade.
Perdoar é um processo pelo qual o novo se faz possível na nossa vida e na vida do outro. Perdão está relacionado à vida, à vida plena; está relacionado ao amor, e amor verdadeiro. Perdoar é amar apesar de tudo, é a vitória do amor sobre o ódio. É por isso que perdoar é fonte de cura e de saúde física e mental. Abramos o nosso coração e nossa alma para o perdão. O convite de hoje é para nos decidirmos pela vida, pelo amor, pelo perdão.


Mnuela Melo